
Troye Sivan abre uma nova fase com “She’s the Best”, single lançado em 14 de agosto que funciona ao mesmo tempo como música, manifesto visual e apresentação de seu quarto álbum. Depois do alcance de Something to Give Each Other, o artista não tenta repetir “Rush” nem aumentar artificialmente a escala: prefere construir uma faixa que começa próxima, quase falada, e cresce até transformar admiração em espetáculo pop.
Uma nova era que começa pela observação
O ponto de partida de “She’s the Best” é simples: Troye observa uma mulher que parece dominar o próprio espaço. Mas a canção não fica presa ao elogio superficial. Aos poucos, essa figura se expande e passa a representar as presenças femininas que atravessam a vida e a identidade criativa do cantor — mulheres cis e trans, drag queens e pessoas que encontram força na expressão do feminino.
Essa escolha desloca o single de uma declaração romântica convencional para uma celebração de referência, comunidade e pertencimento queer. Sivan canta menos como quem deseja possuir aquela figura e mais como quem reconhece o que aprendeu ao observá-la.
Produção cresce sem perder a intimidade
Escrita por Troye Sivan, Leland, George Daniel, Jack Antonoff e Styalz Fuego, a faixa começa com versos falados e uma interpretação controlada. Guitarras, cordas e sintetizadores entram progressivamente, abrindo espaço ao redor da voz até que a música alcance uma dimensão mais ampla e cinematográfica.
A produção — assinada por Sivan, Daniel, Antonoff e Fuego — é eficiente justamente porque evita entregar tudo nos primeiros segundos. Em vez de um refrão construído para explodir imediatamente nas redes, “She’s the Best” trabalha com acumulação: cada camada aumenta a sensação de fascínio sem abandonar o tom íntimo do início.
É uma estratégia próxima da elegância que destacou “Dopamine”, de Robyn: pop que confia no arranjo, na presença do intérprete e no tempo da música, em vez de depender apenas do impacto instantâneo.
Nicole Kidman transforma o clipe em declaração de estilo
Dirigido por Gordon von Steiner, o videoclipe amplia a ideia central ao escalar Nicole Kidman como uma presença magnética dentro de um universo noturno. Ela atravessa a cena com a segurança de quem sabe que está sendo observada, enquanto Sivan assume diferentes posições: espectador, cantor e personagem inserido naquele espaço de desejo e performance.
O vídeo também reúne Sasha Colby e outras figuras ligadas à cultura drag e queer. Em vez de usar essas referências apenas como decoração, a direção as coloca no centro da narrativa. A estética remete à vida noturna e à moda queer de Nova York nos anos 1980, mas o resultado evita parecer uma simples reconstrução nostálgica.
Charli XCX aparece sem roubar o centro
A participação de Charli XCX no encerramento funciona quase como uma assinatura entre amigos e colaboradores. Depois da turnê conjunta SWEAT, sua voz não surge para transformar a faixa em um dueto promocional, mas para reforçar o senso de comunidade que sustenta a proposta. É uma aparição breve e coerente com o universo da música.
O que “She’s the Best” promete para o novo álbum
O álbum She’s the Best está previsto para 9 de outubro de 2026. Sivan apresentou o projeto como um retrato de desejos, identidade, alegria, solidão e pertencimento queer. O primeiro single confirma essa ambição ao reunir música e imagem em uma mesma linguagem, sem separar a canção da maneira como ela será vista e interpretada.
Se o restante do disco mantiver esse equilíbrio entre precisão pop e visão autoral, Troye pode iniciar uma era menos orientada pela urgência da pista e mais interessada em construir personagens, atmosferas e vínculos emocionais.
Veredito
“She’s the Best” não busca superar “Rush” repetindo sua energia. A faixa escolhe outro caminho: começa contida, cresce com elegância e transforma a admiração pelo feminino em linguagem pop. O clipe pode chamar a atenção primeiro por Nicole Kidman, mas a música permanece porque existe uma ideia clara por trás do brilho.
Nota: 8,8/10
Faixa-chave: “She’s the Best”




