
Depois de anos medindo a carreira pela régua do pop internacional, Anitta parece ter encontrado seu movimento mais ousado justamente ao olhar para dentro. Em EQUILIBRIVM II, a cantora transforma ancestralidade, espiritualidade, vulnerabilidade e ritmos brasileiros em matéria de um álbum que não abandona a pista — mas exige uma escuta mais atenta.
Lançado em 23 de julho, o segundo volume amplia o universo apresentado em EQUILIBRIVM e reúne 17 faixas. O projeto atravessa funk, samba, MPB, ijexá, reggae, dancehall e afrobeats, aproximando produção eletrônica e percussões de matriz brasileira. Não é uma coleção de referências encaixadas para provar brasilidade: nos melhores momentos, essas linguagens fazem parte da própria narrativa do disco.
A repercussão confirma que o público percebeu a mudança de escala artística. Onze músicas do álbum estrearam simultaneamente no Hot 100 brasileiro, enquanto a turnê ganhou transmissão nacional pelo Multishow, Globoplay e TV Globo. A nova fase também voltou ao centro da conversa após o show de Niterói e a entrevista de Anitta ao Conversa com Bial.
Mais do que uma continuação
O título pode sugerir uma simples parte dois, mas o novo álbum funciona como aprofundamento. Se o primeiro EQUILIBRIVM apresentava uma artista interessada em reorganizar suas referências, o segundo deixa essa busca mais explícita. Amor, fé, medo, cura e identidade aparecem sem a obrigação de terminar sempre em refrão de efeito imediato.
Isso não significa que Anitta tenha rejeitado o pop. O disco continua interessado em impacto, corpo e repetição, mas troca parte da eficiência calculada por uma atmosfera mais orgânica. A diferença está menos nos gêneros utilizados e mais na intenção: em vez de adaptar uma identidade brasileira a uma fórmula global, o álbum tenta fazer o caminho inverso.
EQUILIBRIVM II não rompe com a Anitta que dominou o pop; ele mostra o que acontece quando essa artista decide que autenticidade também pode ser ambição.
Brasil sem cartão-postal
Um dos maiores acertos está na forma como o álbum trata a música brasileira. As referências não aparecem como decoração tropical destinada ao mercado estrangeiro. Samba, funk, ritmos afro-brasileiros, reggae e MPB convivem de maneira fluida, sustentados por uma produção que preserva textura, percussão e espaço para as vozes.
As participações de Maria Bethânia e Alceu Valença ajudam a ampliar essa ponte entre gerações, mas não funcionam apenas como selos de prestígio. Elas reforçam a ideia de continuidade: Anitta não está “descobrindo” a cultura brasileira, e sim assumindo publicamente que sua trajetória pop sempre pertenceu a uma história musical muito maior.
Há também uma escolha importante em tratar espiritualidade afro-brasileira com centralidade, sem diluí-la até virar apenas estética. O álbum combina símbolos, ritmos e temas de fé com respeito e intenção artística. Esse movimento pode provocar debates, mas é justamente a disposição para entrar nesse território que torna o projeto mais relevante do que um lançamento pop convencional.
“Sal Grosso” traduz a proposta
Entre as faixas que melhor resumem a era, “Sal Grosso” tem a vantagem da síntese. A música aproxima energia de pista, influência jamaicana e imaginação brasileira sem transformar nenhuma dessas referências em caricatura. A coreografia ajudou a faixa a circular nas redes sociais, mas sua força não depende apenas da trend: há personalidade suficiente para sobreviver ao ciclo curto dos vídeos virais.
“Você Já Sabe” abre o repertório estabelecendo o clima de encontro entre o eletrônico e o ritualístico. Já “Feitiço”, com Mart’nália, encontra um ponto particularmente interessante entre samba e produção contemporânea. São canções que mostram como o álbum cresce quando Anitta permite que a atmosfera conduza a estrutura, em vez de perseguir uma explosão a cada trinta segundos.
Nem tudo encontra o mesmo equilíbrio
Com 17 faixas e cerca de uma hora e meia de duração, o projeto cobra fôlego. Algumas ideias poderiam ser mais concisas, e há momentos em que a unidade temática se aproxima da repetição. O excesso parece deliberado — quase como um diário musical —, mas isso não impede que a experiência perca tensão na metade final.
Também existe uma distância inevitável entre intenção e execução. O conceito é tão forte que algumas faixas parecem trabalhar mais para sustentar o universo visual e espiritual da era do que para construir identidades próprias. “Ponta do Pé” e “Azul”, por exemplo, soam menos inspiradas dentro de um conjunto que frequentemente oferece escolhas mais arriscadas.
Ainda assim, a irregularidade é mais interessante do que a segurança. Anitta poderia ter lançado uma sequência eficiente de singles internacionais; preferiu um projeto longo, pessoal e pouco preocupado em caber numa única playlist. É uma decisão artística que merece ser julgada pelos resultados, mas também reconhecida pelo risco.
A turnê completa o álbum
No palco, EQUILIBRIVM ganha a dimensão que às vezes transborda no disco. Figurinos, percussão, iluminação, dança e cenografia organizam os temas de força, vulnerabilidade e reconexão. A transmissão do show de Niterói para todo o país transformou a turnê em uma vitrine nacional e deixou claro que esta não é uma era construída apenas para gerar singles.
O espetáculo também ajuda a explicar por que a nova fase repercute além da base de fãs. Há uma narrativa reconhecível: uma estrela que passou anos expandindo fronteiras volta às próprias origens sem abrir mão da escala conquistada. É um arco poderoso — e, desta vez, a música oferece substância suficiente para sustentá-lo.
Hype ou hit?
Hit — pela coragem de trocar a fórmula pela identidade. EQUILIBRIVM II não é o álbum mais direto de Anitta nem o mais fácil de consumir. Seu tamanho, suas repetições e a força do conceito podem afastar quem procura apenas uma sequência de hits imediatos. Mas é justamente essa recusa em simplificar que torna o trabalho especial.
Quando mistura percussões tradicionais, eletrônica, funk, reggae e MPB sem pedir licença, Anitta entrega um dos projetos mais pessoais e culturalmente ambiciosos de sua carreira. Pode não haver equilíbrio perfeito em todas as faixas, mas existe algo mais raro: uma artista global finalmente confortável em deixar que suas raízes ocupem o centro do palco.
Veredito: 8,5/10
Faixas de destaque: “Você Já Sabe”, “Sal Grosso”, “Feitiço” e “Ogum Me Rodeia”





